terça-feira, 20 de março de 2012


Livro: Estudos gerativos de língua de sinais brasileira e de aquisição de português (L2) por surdos

Hoje em dia, diferentemente do que acontecia no século XIX, não se aceita mais qualquer separação entre as línguas humanas baseada em critérios de pureza ou fineza. Também, no que diz respeito às línguas de sinais, a linguística tem mostrado que línguas de sinais são línguas humanas naturais, que, como as línguas orais, são dotadas de uma gramática altamente sofisticada, que emergem espontaneamente em comunidades de surdos, e que são adquiridas naturalmente por crianças surdas a elas expostas. Esse novo rumo tomado pela linguística a respeito das línguas de sinais tem contribuído imensamente para o estabelecimento de uma nova consciência surda. Este livro, ao tratar de alguns dos temas considerados fundamentais para o entendimento da gramática das línguas sinalizadas, tem o valor de fazer avançar a descrição da língua de sinais brasileira e, com isso, prestar uma contribuição à linguística, à comunidade surda e à sociedade em geral.


http://www.canoneeditorial.com.br/canoneeditorial/cat_linguistica05.htm

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Atendimento psicológico para surdos


                                                                                               Paulo Cesar S. Gonçalves*


Uma das grandes dificuldades do surdo é lidar com suas emoções e sentimentos.  Não porque seja diferente dos ouvintes, que vivem os mesmos conflitos e angústias, mas pela inexistência de um sistema de atendimento psicológico que contemple suas necessidades e peculiaridades.
        Nos últimos dez anos temos observado um movimento crescente em direção à inclusão social dos surdos, com iniciativas do poder público e da sociedade em geral, mas a maioria delas se destinam à educação do surdo, ao ensino da Língua Brasileira de Sinais-Libras, formação de professores especializados, intérpretes, além de uma grande quantidade de trabalhos acadêmicos visando desvendar o mundo dos surdos, mas muito pouco tem-se avançado no tratamento psicológico das pessoas portadoras de surdez.
         Com base em minha experiência clínica de atendimento ao surdo, iniciada há dez anos, em Brasília, já é possível fazer uma avaliação do progresso e das dificuldades enfrentadas nessa área de atendimento. Raros são os profissionais de psicologia que se interessam de forma definitiva por esse novo desafio, possivelmente pela dificuldade do aprendizado da Libras, indispensável ao trabalho terapêutico com os surdos. Por outro lado, não basta aprender Libras e iniciar o atendimento. É fundamental uma constante convivência com a comunidade surda, para que se possa compreender sua cultura e identidade, além da necessária vocação para lidar com as diferenças.
       A terapia com surdos é uma tarefa penosa, que requer muita dedicação e paciência, pois além do surdo, o trabalho se estende à família, um dos principais focos dos conflitos da pessoa surda. Poucos se dão conta da dimensão do sofrimento psicológico e moral do surdo. A falta de comunicação, o isolamento, o preconceito, fazem do surdo um ser dependente do ouvinte, ainda que tenha conseguido avançar em sua educação e desenvolvimento cognitivo. Essa dependência reduz sua auto-estima, produzindo conflitos que muitas vezes são interpretados equivocadamente como comportamentos típicos do surdo, como: agressividade, intolerância, individualismo, incapacidade intelectual, quando na verdade essa visão resulta do desconhecimento do mundo dos surdos. Contudo, não se pode negar que a cada dia os surdos progridem em suas conquistas e afirmação como cidadãos.

 Abordagens clínicas e terapêuticas

          Muitas vezes me perguntam qual a abordagem terapêutica que adoto no atendimento ao surdo. É uma curiosidade natural. Afinal os psicólogos seguem geralmente uma tendência teórica pela qual tem afinidade e preferência. Mas eu afirmo que se nos limitarmos a uma única abordagem terapêutica no caso dos surdos, vamos restringir nosso campo de ação.Há um universo muito amplo de variáveis e especificidades no tratamento psicológico do surdo.
É preciso considerar:
a)     Faixa etária
b)    Período de aquisição da surdez ( pré ou pós-lingual)
c)     Nível de capacidade auditiva ( leve, moderada, severa, profunda, uni ou bilateral)
d)    Outras sequelas ( motoras, neurológicas, surdocegueira)
e)     Ambiente familiar
f)      Nível de oralidade/ leitura labial e sinalização em língua de sinais
g)     Nível socioeconômico
h)    Preferências sexuais ( atualmente existem associações de surdos gays)
i)       Envolvimento com drogas e atividades ilícitas
          Essa gama de condições e peculiaridades exigem do terapeuta uma postura profissional eclética, além da possibilidade de ter que intervir com aconselhamento em conflitos familiares, judiciais e nas relações de trabalho.
          Não basta, portanto, dar consultas no consultório, e torcer para que o surdo resolva seus problemas. É fundamental que o terapeuta esteja aberto a uma visão holística do atendido, em suas dimensões física, mental e espiritual ( no sentido de espiritualidade e não de religiosidade).
          Não se descarta, portanto, o uso de técnicas e procedimentos da terapia comportamental, cognitiva, gestaltista, e mesmo psicanalítica, e de outras abordagens. Cada caso requer procedimentos próprios e compatíveis com a especificidade do cliente. Sem falar na  necessidade do trabalho interdisciplinar, com o fonoaudiólogo, o psicopedagogo, o psiquiatra e outros profissionais.
          Na condição de terapeuta de surdos, muitas vezes precisei participar de audiências na justiça, em processos criminais e  de direito de família, para justificar laudos, esclarecer condutas do cliente diante do juiz, bem como visitar empresas para dialogar com empregados e chefes ouvintes, com o objetivo de melhorar as relações de trabalho.
  
Técnicas e procedimentos terapêuticos
         
         Diante das peculiaridades do comportamento do surdo, desenvolvemos ao longo de nossa experiência clínica, alguns procedimentos básicos para diagnóstico e tratamento, tais como:
         -Entrevista inicial (Anamnese), com a presença de um dos responsáveis (geralmente a mãe)              
         -Grafismo ( testes projetivos, desenho, pintura )
         -Mágicas e brincadeiras ( crianças e adolescentes)
         -Acesso ao computador (softers e programas especiais, que permitem diversão e, ao mesmo tempo, observação de padrões comportamentais, coordenação motora, níveis de frustração/ agressividade, desenvolvimento cognitivo e outras habilidades/aptidões). O uso da internet, hoje dominado pela maioria dos surdos é muito útil para interagir com o surdo.
         -Escuta. O surdo é “tagarela”, gosta de desabafar, repetindo no início as mesmas histórias. A intervenção do terapeuta ocorre no estágio de “fadiga” do discurso, quando então ele se torna receptivo.
         -Informação pedagógica. Conceitos e informações práticas, para o auto-conhecimento e compreensão do mundo, com vistas a melhor comunicação e interpretação dos conteúdos trazidos durante a terapia


Treinamento e competência do terapeuta

         O psicólogo que deseja trabalhar com surdos deve primeiramente entender que essa é uma área de grande demanda. No entanto a quase totalidade dos surdos nunca teve acesso a psicoterapia, devido ao alto custo, - e  somente uma minoria tem condições financeiras para o tratamento-, ou simplesmente porque o poder público não oferece esse tipo de atendimento e quando oferece, é precário e sem profissionais habilitados e capacitados para essa especialidade. Até mesmo porque não existem cursos de capacitação para terapeutas de surdos. Desse modo, é muito difícil encontrar profissionais em todo o país que se dediquem a essa prática.
        Outra exigência é que  o psicólogo precisa aprender Libras, o que pode hoje ser feito com facilidade, pois há oferta de cursos pelo menos nas principais capitais e cidades de maior porte. O aprendizado de Libras só se torna efetivo com a convivência com a comunidade surda, através de Associações e grupos de surdos.
         Enquanto o terapeuta não dominar a Libras, pode iniciar atendimentos com surdos oralizados, o que facilita a comunicação.  É importante que a família do surdo seja orientada, principalmente as mães, e incentivadas para que aprendam Libras para melhor comunicação com o filho. Algumas Associações promovem cursos de Libras para as mães e familiares.
         É fundamental que o terapeuta realize pesquisas sobre surdez, sobre a cultura e identidade surda, a partir do próprio trabalho que realiza e também associando-se a grupos de pesquisas que existem em Universidades e outras instituições que atendem surdos.
        O atendimento psicológico ao surdo constitui um grande desafio e também um mercado de trabalho em potencial para o psicólogo.
        Atualmente a maioria dos surdos, principalmente os mais jovens, tem acesso a internet e uso de celular, e o terapeuta precisa participar desses redes virtuais para estabelecer vínculos com os surdos.
        Existe já um grande acervo de ferramentas para o trabalho do terapeuta, como livros e filmes sobre a vida dos surdos, educação, Libras, alguns produzidos pelo governo através do INES e outros por instituições privadas.
        A competência do terapeuta vai sendo construída com o tempo e pelo desejo de servir a essa causa tão importante, que é preparar o surdo para exercer seus direitos e deveres de cidadão e oferecer a possibilidade de atendimento psicológico a essa minoria tão sacrificada e discriminada desde a antiguidade.

Conclusão

         Fica aqui um desafio para os futuros psicólogos, que estão em formação, e profissionais já atuantes, no sentido de que lancem um olhar sobre o universo dos surdos, tão fascinante e intrigante, e ainda tão inexplorado.
         São tantas as perspectivas para pesquisa e estudos na área de aprendizagem, percepção, linguagem, desenvolvimento, enfim, um vasto campo de crescimento e aprimoramento profissional.
         Entendo que o psicólogo, além de profissional competindo em um mercado de trabalho, tem também uma função social, de melhorar a qualidade de vida das pessoas, de contribuir para uma sociedade mais justa e equalitária. E por que não dedicar um décimo, talvez, de seu tempo, para um trabalho voluntário, para essa parcela carente e sofrida da população, mas com imenso potencial de desenvolvimento. Afinal, desde que a Libras foi aprovada como língua oficial dos surdos, o Brasil é um povo com duas línguas, mas continuamos todos irmãos.

*Psicólogo clínico 

Formação em Libras

Novas Turmas para 2012

Mairores Informações:

Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos - APADA/DF
www.apadadf.org.br
61 33468025
61 85820546

Bebês surdos devem aprender língua dos sinais nos primeiros meses de vida

Pais têm de interagir com brincadeiras e usar linguagem para socialização. Atividades buscam desenvolver habilidades visuais da criança.


bebe_surdo
O maior desafio para quem trabalha com crianças surdas é acreditar nos bebês como diferentes e não como deficientes. É assim que pensa a fonoaudióloga escolar Sandra Refina Leite, que trabalha na Escola para Crianças Surdas (ECS) Rio Branco, em São Paulo. Para Sandra, a melhor maneira de potencializar a produtividade e o desenvolvimento dos bebês é ensinar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) desde os primeiros dias de vida.

“Desde o momento em que os pais descobrem a surdez do bebê é importante procurar um especialista para que, além da própria criança poder aprender a língua dos sinais, eles também possam aprendê-la. É fundamental que a criança desenvolva habilidades visuais para se sentir incluída socialmente e quanto mais cedo ela iniciar o processo de educação, melhor”, diz. “Todos os nossos esforços são para que a criança aprenda da maneira mais natural possível”.
A especialista afirma que os pais não costumam aceitar a surdez do bebê em um primeiro momento. “Nossa sociedade não está preparada para a diferença, e isso se reflete também no comportamento dos pais dos bebês, que demoram um pouco a se acostumar. Ainda assim, o resultado vale muito a pena”, afirma Sandra. A fonoaudióloga diz que em seis meses de atividades o bebê já começa a reconhecer os sinais, mesmo que de maneira ainda não estruturada. 

Em casa, é fundamental que os pais se comuniquem com o bebê por meio da linguagem de sinais. Sandra reafirma ainda a importância de brincar com a criança e contar histórias. “Aos pais cabe a tarefa de apresentar o mundo à criança, nomear pessoas e coisas, para que ela entenda a complexidade do mundo, e interagir sempre”, diz.
Surdez
O teste que identifica a surdez do bebê pode ser feito ainda na maternidade. As causas da deficiência podem ser muitas, mas as mais evidentes, segundo Sandra, são casos de meningite, rubéola e toxoplasmose da mãe durante a gravidez.

No processo educacional proposto pela ECS, o bebê participa de atividades educacionais até os 3 anos, para se familiarizar com a linguagem de sinais. A partir dos 3 anos, a criança é encaminhada para o ensino formal em uma turma formada apenas por surdos. Depois do quinto ano do ensino fundamental, a orientação é que o aluno seja encaminhado a uma escola tradicional, acompanhado de um intérprete.
“Propomos que o aluno fique em uma escola especial porque em todos os outros momentos do dia ele conviverá com pessoas ouvintes, dentro da própria família. A idéia não é isolar o aluno, mas ensiná-lo a agir como uma pessoa diferente, mas participante quando for exposto a qualquer situação com ouvintes”, afirma.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Surdez e família: facetas das relações parentais no cotidiano comunicativo bilíngue Celeste Azulay Kelman,

Daniele Nunes Henriques Silva, Ana Cecília Ferreira de Amorim, Daisy Cristina Azevedo,, Rosa Maria Godinho Monteiro

Fonte: http://seer.bce.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/5698

terça-feira, 1 de março de 2011

X Ciclo de Palestras – Temas em Teoria Gerativa

Universidade de Brasília
Instituto de Letras
Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas
Programa de Pós-Graduação em Linguística

X Ciclo de Palestras – Temas em Teoria Gerativa
VI Workshop em Línguas de Sinais e Bilinguismo dos Surdos

PROGRAMA
9h-9h45min.
1. Deborah Chen Pichler (Gallaudet University): “Aquisição de segunda modalidade de língua: aquisição de L2 e de LM”

9h45-10h30.
2. Diane Carolyn Lillo-Martin (University of Connecticut): “Desenvolvimento bilíngüe bimodal”

10h30min-11h INTERVALO

11h-11h45min.
3. Ronice Muller de Quadros (UFSC): “A caracterização da concordância nas línguas de sinais”, em co-autoria com Josep Quer

14h30-15h15min.
4. Heloisa Salles (UnB) e Aline Mesquita (MinC): “Preposições na Língua de Sinais Brasileira e na interlíngua de surdos aprendizes de português L2”

15h15min.-16h – SESSÃO DE PÔSTERES

16h-17h – ENCERRAMENTO – coquetel e lançamento do livro Estudos Gerativos de Língua de Sinais Brasileira e de Aquisição de Português (L2) por Surdos, organizado por Heloisa Salles e Rozana Naves.

DATA: 17 de março de 2011
LOCAL: ICC Norte – ANFITEATRO 13

Realização: Laboratório de Estudos Formais da Gramática; PPGL/LIP/UnB; Licenciatura Letras-LIBRAS-UFSC – Polo UnB/turma 2008.
ABERTO AO PÚBLICO

Falta dar ouvido ao surdo

Ensino de escrita a deficiente auditivo precisa ser revisto no Brasil, defendem linguistas. Despreparo da escola para lidar com esse aluno especial prejudica aprendizagem.

Por: Célio Yano

Publicado em 28/02/2011 | Atualizado em 28/02/2011

Aprender a expressar e interpretar frases em português parece tendência natural a qualquer pessoa que nasce em meio a falantes do idioma. Não para o surdo, que, desconhecedor de fonemas, tem como língua materna a comunicação por sinais – e não o português.

Por isso, o processo de letramento de deficientes auditivos deve ser diferente daquele que se pratica com ouvintes. Mas as escolas brasileiras não estão preparadas para essa distinção. A consequência é o prejuízo de aprendizado de alunos surdos ao longo de toda a formação escolar.

A questão foi discutida no VII Congresso Brasileiro de Linguística, realizado de 9 a 12 de fevereiro em Curitiba (PR). No evento, foram apontados modelos de ensino que poderiam minimizar as dificuldades enfrentadas por surdos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 3,4% da população do país apresentam algum nível de surdez.

Língua Brasileira de Sinais
Letras e números da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Embora seja comum a vários idiomas, o alfabeto latino é representado por sinais diferentes em cada país. (imagem: Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos)

A linguista Heloísa Salles, da Universidade de Brasília, entende que a premissa básica para o ensino da escrita a deficientes auditivos é reconhecer que os surdos brasileiros formam uma comunidade à parte, que, embora não tenha território próprio, conta com língua e cultura distintas das dos demais cidadãos.

Diferente do que muita gente pensa, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) não é mera representação do português por meio de gestos. Trata-se, na verdade, de uma língua independente, com vocabulário e gramática próprios e que – vale notar – não guarda qualquer relação com a Língua Gestual Portuguesa, utilizada em Portugal.

Assim como o português, a Libras é considerada oficial no Brasil, mas seu uso fica restrito a deficientes auditivos e a pessoas à sua volta. Como o idioma não possui forma escrita, os surdos brasileiros, cercados por informações grafadas em português, acabam por ter o bilinguismo – que é opcional para a maior parte das pessoas – como conhecimento inevitável.

A importância da palavra

Uma criança ouvinte aprende a ler e a escrever geralmente por meio da associação de letras e sílabas aos fonemas que cada sinal gráfico representa. Como o deficiente auditivo é incapaz de encontrar correspondência entre imagem e som, o ensino deve considerar palavras – e não letras ou sílabas – como unidades mínimas de significado, defende a linguista Sueli Fernandes, coordenadora do curso de graduação em Letras/Libras da Universidade Federal do Paraná.
A atual prática de ensino da rede pública torna os portadores de surdez incapazes de acompanhar o nível de escolaridade dos demais colegas

Assim, os surdos devem ser letrados, embora não alfabetizados, em português. “É como um falante de português aprender a reconhecer o significado de ideogramas chineses sem saber pronunciá-los”, explica a pesquisadora, especialista no ensino de português como segunda língua para surdos.

Recentemente, Fernandes acompanhou o letramento de estudantes de ensino médio na região de Curitiba e observou que a atual prática de ensino oferecida na rede pública torna os portadores de surdez incapazes de acompanhar o nível de escolaridade dos demais colegas.

A desigualdade em relação aos outros estudantes é grande, tanto no aprendizado de língua portuguesa quanto no de outras disciplinas, já que o surdo não entende plenamente o idioma em que o conteúdo das aulas é escrito.

Vantagem cognitiva

Segundo a linguista Evani Viotti, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), o bilinguismo dos surdos é visto no Brasil em geral como um problema, quando, na verdade, o conhecimento de duas línguas por deficientes auditivos é uma vantagem cognitiva.

Um exemplo prático da afirmação foi demonstrado em uma experiência realizada na USP em 2003 com o filme A história da pera, que em seis minutos mostra uma série de eventos, alguns em sequência, outros simultâneos, com graus diferentes de relevância. Um voluntário surdo precisou de apenas 30 sinais para descrever o vídeo em Libras. Um falante de português, por sua vez, usou 150 palavras em sua redação.
O sistema educacional deve prever tanto o ensino da língua de sinais quanto o do português, além de usar correntemente as duas formas de comunicação na escola

A diferença é explicada pelo caráter quadridimensional da língua de sinais. Além das três dimensões de que a comunicação gestual pode se utilizar (profundidade, largura e altura), o tempo também integra a formação das estruturas frasais, o que não ocorre no texto escrito.

Por outro lado, a utilização exclusiva de Libras pode acarretar problemas para a criança surda que ingressa na escola no Brasil, uma vez que ela fica incomunicável diante de colegas que só compreendem o português.

A solução apontada pelas linguistas passa por uma mudança no atual sistema educacional, que deve prever tanto o ensino da língua de sinais quanto o da língua majoritária (no caso do Brasil, o português), além de usar correntemente as duas formas de comunicação na escola.

Os especialistas criticam a simples inclusão de intérpretes de Libras em sala de aula. “A legislação brasileira reconhece a Libras como língua oficial, mas esse reconhecimento não ocorre efetivamente na prática”, diz Viotti. E resume: “É preciso haver respeito à identidade cultural do surdo.”

Célio Yano
Ciência Hoje On-line/ PR